Paralela cotovia
rasante ao telhado
Si bemol assobia
o seu voo picado.
Contra o chão
vou raspando
do sapato o frio
Assobia mais forte
que o vento a sola.
Lá no cimo contralto
toma as redeas à melodia
Assobia mais forte
paralela cotovia.
2/09/2012
1/26/2012
Faduncho para cavaquinho
Desgraçado tu nascestes,
não tinhas onde cair morto
Mas fizestes-te direito,
Mesmo nascendo tão torto.
És trabalhador poupado,
Chefe de família à antiga.
Fizestes-te licenciado
Pós graduado em cantiga.
Cantando não me alegras
desta vez fostes indecente,
queixares-te da reforma
é gozar com a gente. ( bis)
não tinhas onde cair morto
Mas fizestes-te direito,
Mesmo nascendo tão torto.
És trabalhador poupado,
Chefe de família à antiga.
Fizestes-te licenciado
Pós graduado em cantiga.
Cantando não me alegras
desta vez fostes indecente,
queixares-te da reforma
é gozar com a gente. ( bis)
12/23/2011
É Natal
É Natal é Natal
sigo para casa
é Natal é Natal
com um grão na asa
Nada pedi para mim
só uma capa pro volante
um passe social
a cassette do Marante
Uma garrafa de Chivas
um passe do benfica
um garrafão de tinto
viagra pra dar pica
Umas cuecas novas
meias com raquetas
um poster dos grandes
de boazonas checas
Um décimo terceiro
um iva mais baixinho
um terço dos novos
o livro do Mourinho
Os records do Benfica
um espelho e um pente
uma cautela premiada
uma nossa senhora fluorescente
Um alinhamento nos farois
um manete das mudanças
uma caixa de pasteis de nata
um quinta de pancas
3 quilos de nozes
umas jantes com polegadas
um bolo rei dos grandes
com as favas contadas
uma buzina musical
tocando a ponte do rio kwai
era um filme bestial
Se a memória não me trai
um fim de semana na Golegã
Para ver os cavalos
10 quilos de pedra pomes
para raspar os calos
uma boa jeropiga
um quadro do picasso
um seguro de saúde
preciso de um novo baço
Um singelo pedido
sou modesto, fogo
quando se pede ao senhor
pede-se logo o dobro
Não está muito frio
nem muito calor
Esta quadra é palha
esqueçam por favor
O dia é de festa
Festa do Jesus
o do nazareno
Nao aquele da Luz.
11/08/2011
GPS
Apesar de muitos terem o GPS, nunca o vi a ser usado. É muito mais interessante inventar um caminho mais longo, ou caso acertemos no nome de uma rua recondita com alguma caracteristica incomum, debater o melhor caminho a tomar, levando em conta variáveis como o tempo, o número de semáforos, vias rápidas, atalhos estranhos ou sentidos proibidos, como o tacto.
10/12/2010
Comissão
Apanho o taxi no Bairro Alto.
- Vem este gajo , a falar francês.... Não percebo nada de francês. Com inglês safo-me, mas francês... Caralho.
- Eu também não pesco nada de francês. Tenho 10 segundos de francês e acabou.
O taxista conta-me que o francês queria ir para uma casa de meninas. É apanágio dos taxistas saberem sempre onde se dirigir. Recebem dinheiro para isso. Ou recebiam.
O Jorge explica-me, pelo caminho até casa, que os porteiros das pensões e hoteis, os porteiros das discotecas, os porteiros das casas de putas, agora já não querem dar uma comissãozita aos taxistas, os maiores angariadores de clientela. Filhos da puta, repete o Jorge.
Conta-me que alguns donos de boites querem as facturas dos taxis para poder dar uma comissão. Não tem lógica nenhuma, o propósito inicial da comissão é perpetuar uma tradição de economia paralela, pois claro. Indignado, Jorge repete-se nos impropérios, uma e outra vez, contra essa corja que não o deixa ganhar uns cobres e oferece-lhes verbal e constantemente, prazer anal de uma forma pouco polida.
Confesso que o Jorge, além de parecer um vampiro, estava mais bêbado do que devia.
- Vem este gajo , a falar francês.... Não percebo nada de francês. Com inglês safo-me, mas francês... Caralho.
- Eu também não pesco nada de francês. Tenho 10 segundos de francês e acabou.
O taxista conta-me que o francês queria ir para uma casa de meninas. É apanágio dos taxistas saberem sempre onde se dirigir. Recebem dinheiro para isso. Ou recebiam.
O Jorge explica-me, pelo caminho até casa, que os porteiros das pensões e hoteis, os porteiros das discotecas, os porteiros das casas de putas, agora já não querem dar uma comissãozita aos taxistas, os maiores angariadores de clientela. Filhos da puta, repete o Jorge.
Conta-me que alguns donos de boites querem as facturas dos taxis para poder dar uma comissão. Não tem lógica nenhuma, o propósito inicial da comissão é perpetuar uma tradição de economia paralela, pois claro. Indignado, Jorge repete-se nos impropérios, uma e outra vez, contra essa corja que não o deixa ganhar uns cobres e oferece-lhes verbal e constantemente, prazer anal de uma forma pouco polida.
Confesso que o Jorge, além de parecer um vampiro, estava mais bêbado do que devia.
10/02/2010
Talvez ainda se endireite
Primeiro, cheguei-me a uma praça de taxis e como é hábito, bati no vidro, a pedir licença para entrar. Nisto, o taxista olha para mim, liga o carro e arranca. Fico assim meio parvo, a olhar para ele, a olhar para o taxi seguinte, o taxista seguinte a olhar também.
Entro neste, ainda com a mesma cara de incrédulo, e já tenho tema para a viagem.
- Nunca me tinha acontecido. Isto é hábito?
- Também nunca tinha reparado, olhe. Se calhar queria acabar o turno.
Isto serve de ice-breaker. A partir daqui, um taxista pode contar a vida toda. Mas ao contrário de um outro profissional da partilha, o barman, o taxista é o analisado e não o analista.
- Há bocado, entrou aí um gajo, andámos um bocado, pediu-me para parar e pôs-se aí a fumar um cachimbo de coca.
- Assim? é meio perigoso, pode ter problemas.
- O que é quer? vou pô-lo na rua? nem lhe disse nada.
- Pois, cada um na sua...
- É fodido, a puta da droga, tou lixado com o meu filho. Não sei que faça.
16 anos, a chumbar anos de seguida, a fumar cachimbos de coisas que o pai não sabe o que são, pergunta-me se erva ou ache, se coca, acha que pode ser coca, pergunta-me da erva, digo-lhe o que sei, copos é comigo mas não contem comigo para mais, o homem está atrapalhado, não sabe o que fazer ao miúdo.
Só lhe soube dizer que 16 anos é muito novo para andanças tão complicadas. Se calhar, não é coca. Mas o miúdo só se mete em azares, responde ele.
E assim, durante o caminho, o taxista, grande bruto de bigodaça foi amolecendo e pedindo a minha opinião sobre o filho, novo demais para andar na má vida.
Entro neste, ainda com a mesma cara de incrédulo, e já tenho tema para a viagem.
- Nunca me tinha acontecido. Isto é hábito?
- Também nunca tinha reparado, olhe. Se calhar queria acabar o turno.
Isto serve de ice-breaker. A partir daqui, um taxista pode contar a vida toda. Mas ao contrário de um outro profissional da partilha, o barman, o taxista é o analisado e não o analista.
- Há bocado, entrou aí um gajo, andámos um bocado, pediu-me para parar e pôs-se aí a fumar um cachimbo de coca.
- Assim? é meio perigoso, pode ter problemas.
- O que é quer? vou pô-lo na rua? nem lhe disse nada.
- Pois, cada um na sua...
- É fodido, a puta da droga, tou lixado com o meu filho. Não sei que faça.
16 anos, a chumbar anos de seguida, a fumar cachimbos de coisas que o pai não sabe o que são, pergunta-me se erva ou ache, se coca, acha que pode ser coca, pergunta-me da erva, digo-lhe o que sei, copos é comigo mas não contem comigo para mais, o homem está atrapalhado, não sabe o que fazer ao miúdo.
Só lhe soube dizer que 16 anos é muito novo para andanças tão complicadas. Se calhar, não é coca. Mas o miúdo só se mete em azares, responde ele.
E assim, durante o caminho, o taxista, grande bruto de bigodaça foi amolecendo e pedindo a minha opinião sobre o filho, novo demais para andar na má vida.
8/24/2010
Como paralisar um taxista
Às vezes, um taxista mais solitário pode não saber quando parar de exibir a sua autoridade de comentarista principal dentro do taxi. Para um gajo como eu, por exemplo, que não vê o Prof. Marcelo todos os Domingos, nem acompanha um campeonato de futebol, nem gosta do PP, pode ser algo trabalhoso. Assim, é necessário um argumento - atenção, deve ser dito sem interromper, mesmo que o taxista comece a comentar - de destruição maciça, que o deixe atónito. Deixo aqui um que desenvolvi para casos desses. Usem com moderação:
"- esses gajos? é uma cambada de chulos, é o que é. Andam aí a mamar da federação e foi ver o que foi o campeonato. Diga lá se aquilo foi alguma coisa? Mandaram pra lá todos e mais alguns e mais a prima do do massagista e o caralho, vão todos à pala e o zé aqui é que paga, tudo com o dinheiro dos meus impostos. Havia de vir aí um gajo que eu cá sei, tomar conta disto, mas não, dizem aos jovens que é mal feito, mas olhe, dantes não se roubava como agora. E o velho morreu teso, não devia nada a ninguém, não é como esses gajos do governo, uma máfia."
Prometo que ele fica calado, depois de concordar.
"- esses gajos? é uma cambada de chulos, é o que é. Andam aí a mamar da federação e foi ver o que foi o campeonato. Diga lá se aquilo foi alguma coisa? Mandaram pra lá todos e mais alguns e mais a prima do do massagista e o caralho, vão todos à pala e o zé aqui é que paga, tudo com o dinheiro dos meus impostos. Havia de vir aí um gajo que eu cá sei, tomar conta disto, mas não, dizem aos jovens que é mal feito, mas olhe, dantes não se roubava como agora. E o velho morreu teso, não devia nada a ninguém, não é como esses gajos do governo, uma máfia."
Prometo que ele fica calado, depois de concordar.
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