8/02/2012

Fado bloqueado

Turbulenta tarde
amarra cadeado
bloqueado à parte
argento desfalcado

Vasilhame rodoviário
mealheiro estadual
jante comida
grampo anormal

Recolher obrigatório
pecuniário sermão
mordaça de chapa
polícia cabrão.

2/09/2012

Fado Cotovia

Paralela cotovia
rasante ao telhado
Si bemol assobia
o seu voo picado.

Contra o chão
vou raspando
do sapato o frio
Assobia mais forte
que o vento a sola.

Lá no cimo contralto
toma as redeas à melodia
Assobia mais forte
paralela cotovia.

1/26/2012

Faduncho para cavaquinho

Desgraçado tu nascestes,
não tinhas onde cair morto
Mas fizestes-te direito,
Mesmo nascendo tão torto.

És trabalhador poupado,
Chefe de família à antiga.
Fizestes-te licenciado
Pós graduado em cantiga.

Cantando não me alegras
desta vez fostes indecente,
queixares-te da reforma
é gozar com a gente. ( bis)

12/23/2011

É Natal

É Natal é Natal
sigo para casa
é Natal é Natal
com um grão na asa

Nada pedi para mim
só uma capa pro volante
um passe social
a cassette do Marante

Uma garrafa de Chivas
um passe do benfica
um garrafão de tinto
viagra pra dar pica

Umas cuecas novas
meias com raquetas
um poster dos grandes
de boazonas checas

Um décimo terceiro
um iva mais baixinho
um terço dos novos
o livro do Mourinho

Os records do Benfica
um espelho e um pente
uma cautela premiada
uma nossa senhora fluorescente

Um alinhamento nos farois
um manete das mudanças
uma caixa de pasteis de nata
um quinta de pancas

3 quilos de nozes
umas jantes com polegadas
um bolo rei dos grandes
com as favas contadas

uma buzina musical
tocando a ponte do rio kwai
era um filme bestial
Se a memória não me trai

um fim de semana na Golegã
Para ver os cavalos
10 quilos de pedra pomes
para raspar os calos

uma boa jeropiga
um quadro do picasso
um seguro de saúde
preciso de um novo baço

Um singelo pedido
sou modesto, fogo
quando se pede ao senhor
pede-se logo o dobro

Não está muito frio
nem muito calor
Esta quadra é palha
esqueçam por favor

O dia é de festa
Festa do Jesus
o do nazareno
Nao aquele da Luz.

11/08/2011

GPS

Apesar de muitos terem o GPS, nunca o vi a ser usado. É muito mais interessante inventar um caminho mais longo, ou caso acertemos no nome de uma rua recondita com alguma caracteristica incomum, debater o melhor caminho a tomar, levando em conta variáveis como o tempo, o número de semáforos, vias rápidas, atalhos estranhos ou sentidos proibidos, como o tacto.

10/12/2010

Comissão

Apanho o taxi no Bairro Alto.

- Vem este gajo , a falar francês.... Não percebo nada de francês. Com inglês safo-me, mas francês... Caralho.
- Eu também não pesco nada de francês. Tenho 10 segundos de francês e acabou.
O taxista conta-me que o francês queria ir para uma casa de meninas. É apanágio dos taxistas saberem sempre onde se dirigir. Recebem dinheiro para isso. Ou recebiam.
O Jorge explica-me, pelo caminho até casa, que os porteiros das pensões e hoteis, os porteiros das discotecas, os porteiros das casas de putas, agora já não querem dar uma comissãozita aos taxistas, os maiores angariadores de clientela. Filhos da puta, repete o Jorge.
Conta-me que alguns donos de boites querem as facturas dos taxis para poder dar uma comissão. Não tem lógica nenhuma, o propósito inicial da comissão é perpetuar uma tradição de economia paralela, pois claro. Indignado, Jorge repete-se nos impropérios, uma e outra vez, contra essa corja que não o deixa ganhar uns cobres e oferece-lhes verbal e constantemente, prazer anal de uma forma pouco polida.
Confesso que o Jorge, além de parecer um vampiro, estava mais bêbado do que devia.

10/02/2010

Talvez ainda se endireite

Primeiro, cheguei-me a uma praça de taxis e como é hábito, bati no vidro, a pedir licença para entrar. Nisto, o taxista olha para mim, liga o carro e arranca. Fico assim meio parvo, a olhar para ele, a olhar para o taxi seguinte, o taxista seguinte a olhar também.
Entro neste, ainda com a mesma cara de incrédulo, e já tenho tema para a viagem.
- Nunca me tinha acontecido. Isto é hábito?
- Também nunca tinha reparado, olhe. Se calhar queria acabar o turno.
Isto serve de ice-breaker. A partir daqui, um taxista pode contar a vida toda. Mas ao contrário de um outro profissional da partilha, o barman, o taxista é o analisado e não o analista.
- Há bocado, entrou aí um gajo, andámos um bocado, pediu-me para parar e pôs-se aí a fumar um cachimbo de coca.
- Assim? é meio perigoso, pode ter problemas.
- O que é quer? vou pô-lo na rua? nem lhe disse nada.
- Pois, cada um na sua...
- É fodido, a puta da droga, tou lixado com o meu filho. Não sei que faça.

16 anos, a chumbar anos de seguida, a fumar cachimbos de coisas que o pai não sabe o que são, pergunta-me se erva ou ache, se coca, acha que pode ser coca, pergunta-me da erva, digo-lhe o que sei, copos é comigo mas não contem comigo para mais, o homem está atrapalhado, não sabe o que fazer ao miúdo.
Só lhe soube dizer que 16 anos é muito novo para andanças tão complicadas. Se calhar, não é coca. Mas o miúdo só se mete em azares, responde ele.
E assim, durante o caminho, o taxista, grande bruto de bigodaça foi amolecendo e pedindo a minha opinião sobre o filho, novo demais para andar na má vida.